Dados abertos e turismo municipal: o que já existe, o que você pode usar e o que falta
Há mais dado público disponível sobre turismo do que a maioria das secretarias imagina. O problema não é acesso — é saber onde estão, o que cada base entrega e como combiná-las. Este artigo faz essa curadoria.

Uma das queixas mais recorrentes na gestão pública do turismo é a falta de dados. O que poucas secretarias percebem é que parte considerável da informação que precisam já existe — pública, gratuita e acessível.
O problema real não é ausência de dado. É que cada base está em um portal diferente, com formato diferente, atualizada em periodicidade diferente e sem nenhuma ponte automática entre elas. Encontrar, entender e usar esses dados exige um trabalho de curadoria que a maioria das secretarias municipais não tem tempo nem equipe para fazer.
Este artigo faz esse trabalho: apresenta as principais bases de dados públicas aplicáveis ao turismo municipal, o que cada uma entrega, qual é a limitação real de cada uma e como combiná-las para construir uma leitura mais completa da atividade turística local.
Novo CAGED — emprego formal no turismo
O que é: o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, atualizado mensalmente pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Permite acompanhar admissões, desligamentos e estoque de empregos formais por setor de atividade econômica (CNAE).
O que entrega para o turismo: com a lista das 11 Atividades Características do Turismo (ACTs) — hospedagem, alimentação, transporte, cultura, agências de viagem, entre outras — é possível filtrar o painel e acompanhar mensalmente o comportamento do emprego formal no setor no município.
Como acessar: painel Power BI público disponível no portal do Ministério do Trabalho. O CIET/SETUR-SP disponibiliza manual específico para localizar as ACTs dentro do painel, acessível em turismo.sp.gov.br/ciet-manuais.
Limitação importante: o CAGED registra apenas empregos formais diretos. Não captura trabalhadores informais, autônomos sem registro ou cooperativas. Para o turismo, que tem alta informalidade, o dado subestima o impacto real no mercado de trabalho.
CADASTUR — prestadores de serviços turísticos
O que é: o sistema de cadastro de prestadores de serviços turísticos do Ministério do Turismo. Registra meios de hospedagem, agências de viagem, guias de turismo, transportadoras, parques temáticos, acampamentos e outros serviços regulamentados.
O que entrega para o turismo: permite saber quantos e quais prestadores formalizados existem no município — e qual é o seu porte e categoria. É também um indicador de formalização do setor.
Como acessar: consulta pública em cadastur.turismo.gov.br. O Mapa do Turismo Brasileiro usa dados do CADASTUR como um dos critérios de participação.
Limitação importante: o CADASTUR registra apenas quem se cadastrou voluntariamente. Meios de hospedagem informais, restaurantes, guias sem registro e outros prestadores não aparecem — o que tende a subestimar a oferta turística real em destinos com menor grau de formalização.
ANAC — embarques e desembarques em aeroportos
O que é: a Agência Nacional de Aviação Civil publica dados mensais de movimentação de passageiros em aeroportos brasileiros, com detalhamento por aeroporto de origem e destino.
O que entrega para o turismo: volume de passageiros chegando e partindo de aeroportos próximos ao município, com série histórica. Útil para destinos com fluxo aéreo relevante — especialmente Estâncias e MITs com aeroporto regional.
Como acessar: portal de dados abertos da ANAC.
Limitação importante: aplicável apenas a municípios com aeroporto ou próximos a um com movimento relevante. Para a maioria dos municípios de pequeno porte, esse dado não existe ou é irrelevante.
Mapa do Turismo Brasileiro — categorização e rede de destinos
O que é: instrumento do Ministério do Turismo que reúne os municípios participantes do Programa de Regionalização do Turismo. O Mapa categoriza os municípios em três perfis, conforme a Portaria MTur nº 1/2026: Município turístico, Município com oferta turística complementar e Município de apoio ao turismo. A categorização é feita com base em 70 variáveis organizadas em 10 dimensões, em análise de cluster desenvolvida pelo Ministério do Turismo em parceria com o IPEA.
O que entrega para o turismo: lista oficial dos municípios turísticos brasileiros, sua categorização e a estrutura das regiões turísticas. Útil para benchmarking entre municípios e para entender o posicionamento relativo do destino.
Como acessar: mapa.turismo.gov.br.
Limitação importante: a categorização reflete o desempenho econômico registrado — municípios com turismo relevante mas informalidade alta podem ser subcategorizados por não terem dados suficientes nas bases usadas pelo Ministério.
ISS do setor de turismo — o dado que não é aberto
O ISS — Imposto Sobre Serviços — arrecadado nas Atividades Características do Turismo é um dos indicadores mais diretos de movimentação econômica do setor. Mas ele não é dado aberto.
A coleta exige acordo formal entre o observatório ou secretaria de turismo e a Secretaria de Fazenda municipal, que deve enviar periodicamente a planilha com os valores arrecadados por CNAE ou por código da Lei Complementar 116/2003. Em alguns municípios, a negociação é simples. Em outros, encontra resistência burocrática.
Para municípios onde o ISS não está disponível por CNAE, é possível trabalhar com os códigos definidos pelo próprio município e relacioná-los às ACTs — o que exige um trabalho de mapeamento inicial, mas viabiliza o monitoramento.
Como combinar essas bases
Nenhuma dessas fontes, isoladamente, conta a história completa do turismo municipal. O valor está no cruzamento.
Um exemplo prático: em um fim de semana de evento, o fluxo de veículos na rodovia de acesso (ARTESP) sobe 40% em relação ao fim de semana anterior. A taxa de ocupação hoteleira, coletada diretamente com os meios de hospedagem, chega a 92%. O CAGED do mês seguinte mostra variação positiva nas admissões em serviços de alimentação. A pesquisa de demanda aplicada durante o evento indica que 68% do público veio de outros municípios, com gasto médio diário de R$ 180.
Esses quatro números juntos constroem uma leitura de impacto econômico metodologicamente defensável. Separados, cada um diz pouco.
O que ainda falta
A principal lacuna não é técnica — é de cultura de gestão. As bases existem, os portais são públicos, as metodologias estão disponíveis. O que falta, na maioria dos municípios, é um processo definido para acessar essas bases regularmente, consolidar os dados e usá-los na tomada de decisão.
O segundo gap é de integração. Cada base tem formato, periodicidade e sistema de acesso diferentes. Sem um instrumento que consolide essas fontes em uma leitura única, o gestor precisa acessar cinco portais diferentes para montar uma análise básica — e isso raramente acontece no cotidiano de uma secretaria com equipe reduzida.
Reconhecer esse problema é o primeiro passo para resolvê-lo. O dado existe. O processo para usá-lo é o que precisa ser construído.
Referências: Novo CAGED — Ministério do Trabalho e Emprego; CADASTUR — Ministério do Turismo; ARTESP — Dados Abertos; ANAC — Dados Abertos; Mapa do Turismo Brasileiro — MTur; CIET/SETUR-SP — Matriz de Indicadores RITS-SP, outubro de 2025.